NOVIDADE - ÚLTIMA CRÔNICA


ÚLTIMA CRÔNICA

 

 

 

 

 

A

lgumas vezes na vida da gente surge um aquilo que se torna sólido, trazendo prazer, alegria e mais que isto, uma sensação de se estar participando de algo que vale a pena.

 

O “valer a pena” é uma das melhores sensações que existe. Anda de braços dados com “eu dei conta”. Foi assim a minha participação no Montbläat.

 

Mas não é de mim que se trata agora. Sou uma entre muitos. E que muitos!

 

Eu quero falar é de quem possibilitou toda esta coisa boa. Nele o “valeu a pena” e o “eu dei conta” se avultam.

 

Explicar o Brasil, toda semana foi o encargo que se deu Fritz Utzeri durante quatro anos. Há que se respeitar a decisão do fim.

 

Fim?

Não! Não mesmo!

 

Surge espontânea a feliz frase: “old soldiers never die. They just disapear”.

 

Velho e bom soldado, boa a luta.

 

Vai daí que é apenas um desaparecimento, mas não um fim.

 

Fim é um acabar total.

 

Desaparecer tem uma peculiaridade: não permite que a gente esqueça.

 

Fica lá a coisa intacta na eternidade da lembrança e no desejo perene de que reapareça trazendo tudo de bom que nos trazia.

 

Aportei aqui no Montbläat por um pedido meu.

 

Escrevia eu estas crônicas para minhas netas. Não eram destinadas a ser lidas no tempo real.

 

Um dia, quando eu finalmente encerrasse meu expediente nesta vida, estas belas moças poderiam me conhecer melhor e, sobretudo, saber que além de avó (entidade que anula todas as características pessoais) eu era uma pessoa.

 

Eu já conhecia Fritz e Liège.

 

Os encontrava vez por outra em casa de Jorge e Ângela Pontual.

 

Quando estes se foram daqui para os Estados Unidos os encontros passaram a ser raros. Só ocorriam quando os fujões apareciam de férias.

 

Eis que um dia um e-mail de Ângela me fala do Montbläat.

 

Tornei-me assinante e num impulso que sei lá de onde veio, e que até hoje me espanta, enviei ao Fritz duas das crônicas escritas para as netas numa esperança que poder vê-las publicadas. Fui mais que bem recebida e acolhida.

 

Vai daí que foram quatro anos de um enorme prazer.

 

A quantidade de crônicas extrapolou de muito as que eu planejara escrever. E as netas foram substituídas por pessoas que não conheço e que passaram a me conhecer um pouco.

 

Algumas, generosamente, me faziam saber que a leitura lhes trazia algum prazer. “Muita honra para uma pobre marquesa” como diria minha adorada avó quando achava que lhe estavam sendo feitos elogios imerecidos. Não sei de onde vem o dito. Mas continuo a usá-lo como se sentido fizesse. Não tenho como agradecer a Fritz o muito que me proporcionou.

 

Vocês sabem que eu estava chegando à 200ª. crônica?! Cáspite!

 

E com esta exclamação que seria da minha bisavó encontro-me uma cronista (!!) no limiar (questão de dias!) dos 79 anos!!

 

Voltando aos tempos atuais: VALEU!

 

A linguagem dos jovens tem aqui seu lugar e só não disse “irado” porque não captei ainda bem o exato significado.

 

Nunca tive problema com o final das crônicas.

 

O início é sempre mais difícil: do que vou eu falar?

 

Depois de iniciada uma o final vem como por mágica, como se estivesse pronto numa gaveta e é só abri-la.

 

Desta vez o final não será meu.

 

Preciso voltar no tempo de encontrá-lo nas palavras de um grande brasileiro.

 

Palavras que eu ouvi com 16 anos e até hoje me perseguem. Nunca as usei talvez porque não houvesse encontrado o motivo que as mereceriam. Encontro agora.

 

Quando a Fundação Getulio Vargas foi criada não era a escola de administração que hoje é. Era um centro de altos estudos.

 

Só para que tenham uma pálida idéia cito alguns nomes participantes dos diversos centros de estudos que abrangiam inúmeras áreas de conhecimento: César Lattes, Leopoldo Nachbin, Oto Maria Carpeaux, Carlos Chagas Filho, Leite Lopes, Santa Rosa e por ai vai.

 

Meu pai era o Diretor Executivo. Em 1946 por uma decisão de governo acabou-se a Fundação nos moldes em que havia sido planejada. Foi um balde de água fria. Uma consternação.

 

Teria César Lattes ficado no Brasil se houvesse prosseguido com seus estudos e pesquisas?

 

Não saberemos nunca. Lino de Sá Pereira encerrou as atividades da Fundação com um memorável discurso, maravilhando e emocionando a adolescente que eu era.

 

Fritz quis explicar o Brasil através do Montbläat.

 

Durante quatro anos o fez com maestria maravilhando esta velha que agora vos fala.

 

A frase de encerramento do discurso de Lino de Sá Pereira, neste caso atemporal, aqui está para dar fim à crônica, agora aplicada a Fritz e a seu grande trabalho:

O Brasil ainda é jovem para ser uma república de inteligências!

 

Esta constatação guardava e ainda guarda dentro de seu significado, uma esperança: os jovens tendem a crescer.
 
Alguns custam mais a se tornar adultos.
 
Mas acabam chegando lá com a ajuda de alguns poucos abnegados que sempre serão lembrados.
 
A frase escutada há 63 anos por esta (agora cronista!) não foi esquecida como também não o será o Montbläat. 
 
 
 
 

Autor:Anna Maria Ribeiro

Créditos:Luiz Affonso

Fonte:Montblaat

Data:03/04/2009

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