RADIO DAYS
“PELA CULTURA DOS QUE VIVEM EM NOSSA TERRA, PELO PROGRESSO DO BRASIL” Com essa frase, para simbolizar o que seria o rádio, Roquette Pinto inaugurou a primeira emissora no Brasil: Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, em 20 de abril de 1923, que se tornou a PRA-A. Ainda nos anos 20, foram criadas a Rádio Clube do Brasil - PRA-B, Rádio Mayrink Veiga - PRA-K e Rádio Educadora do Brasil - PRA-C, ao mesmo tempo que outras se espalhavam pelo Brasil, como "sociedades e clubes", com muito vigor, mas pouco dinheiro. Somente nos anos 30, principalmente a partir de 1932, é que o rádio tomou impulso, com a permissão de transmitir propaganda comercial. Ademar Casé foi o pioneiro a lançar anúncios em seu programa na Rádio Philips -PRA-X. A partir da chegada de César Ladeira ao Rio de Janeiro e à Rádio Mayrink Veiga o rádio tomou enorme impulso. A inteligência de Casé (sabendo “vender seu peixe”) e a de César Ladeira, contratando artistas (principalmente cantores) fez com que o rádio tomasse um impulso tornando-se o primeiro grande veículo de comunicação de massa, embora ainda não atendesse a todas as classes sociais. Nos anos 30, embora mais três emissoras fossem criadas: Guanabara (1932), Tupi (1935) e Nacional (1936) a Mayrink, com grandes artistas (cantores, músicos, rádio-atores, locutores ...) era a que tinha maior audiência. Só a partir de 1942, com a incorporação ao patrimônio nacional, a Nacional começou a dominar o meio, mas a Mayrink ainda marcou sua presença e sua audiência até 1948, quando perdeu quase todo seu elenco, absorvido pelos melhores salários que a Nacional podia oferecer. O primeiro cantor a assinar contrato com a Mayrink, tornando-se de fato um profissional, assim reconhecido, foi Francisco Alves, apesar de Gastão Formenti já ali se encontrar. Francisco Alves e Vicente Celestino, dois cantores bem conhecidos, desde os anos 20, ainda não acreditavam na força do rádio, apresentando-se em teatros e circos, onde também cantavam Aracy Cortes, Elisinha Coelho, Stefania de Macedo e outros que só mais tarde perceberam a força que o rádio teria. Vieram e ficaram famosos através do rádio, Carmen Miranda e sua irmã Aurora, Dircinha Batista e sua irmã Linda, Sílvio Caldas e seu irmão Murilo, as Irmãs Pagãs, os irmãos Tapajós, Barbosa Júnior e seu irmão Luiz ... até parece o Parlamento de hoje. Mas também vieram Almirante, Noel Rosa, Braguinha, Henrique Brito, formando o "Bando de Tangarás", a dupla Joel e Gaúcho, o grupo Bando da Lua,o grupo Anjos do Inferno... E Ciro Monteiro, Odete Amaral, João Petra de Barros... Foi criado, ainda na Mayrink,o Teatro Pelos Ares, por César Ladeira, Plácido Ferreira e Paulo de Magalhães, que se tornou o carro-chefe da emissora, que também tinha a “Biblioteca do Ar” e o “Teatro de Operetas”, no qual se destacou Stela Maris, que se casaria com Dorival Caymmi, quando ele, levado por Carmen Miranda, foi atuar na emissora. Os primeiros a atuar na Rádio Tupi foram Francisco Alves, Carmen Miranda (que deixaram a já então PRA-9), Almirante, Paulo Roberto, Ari Barroso, Carlos Frias, Paulo Gracindo... No dia da inauguração da Rádio Nacional, já ali estavam Celso Guimarães (que abriu a programação), Orlando Silva, Luciano Perrone, Oduvaldo Cozzi... aos poucos e depois com mais força, a Nacional foi-se tornando a maior emissora da América Latina. Só essas três emissoras tiveram um grande “cast”; pelas demais, como Cajuti, Clube, Educadora, Ipanema, Transmissora, Cruzeiro do Sul ,Globo ... não passaram grandes artistas; essas emissoras dedicaram-se mais a apresentação de discos, notícias, futebol... Assim, foi,num pequeno resumo, o rádio antes do advento da televisão; esta hoje domina e o rádio (salvo pelo transístor) passou apenas a ser retransmissor de programas “musicais” de baixa qualidade, de partidas de futebol ou de jornalismo. A Rádio Nacional, revitalizada, procura apresentar alguns programas “ao vivo”, tem dois pequenos auditórios, mas jamais voltará aos seus dias de glória. ADORO O SAMBA
Talvez seja difícil de acreditar, mas quem gravou um samba com esse título e o interpretou como um sambista, foi o grande aniversariante do mês de abril, nascido no dia 24 do ano de 1913: CARLOS GALHARDO. Conhecido como “o cantor que dispensa adjetivos”, como o denominou César Ladeira ou o “Rei da Valsa”, título dado por Blota Júnior, CARLOS GALHARDO interpretou mais sambas que valsas, Sério? Seriíssimo. Sua segunda gravação, depois da primeira, com dois frevos, foi “Para Onde Irá o Brasil?” ,o anteriormente comentado samba de Assis Valente. Vieram depois: “É Duro de se Crer”, “Samba Nupcial”, “Sonho”, “P’ra Quem Sabe dar Valor”, “Pão de Açúcar”, “Sinos da Penha”, “Tenho Razão” e alguns outros, antes de sua primeira valsa, gravada em 1936: “Cortina de Veludo”, que lhe abriu as portas para o “mundo das valsas e canções”. Daí passou a só gravar valsas? Não! Na Colúmbia, onde gravou “Cortina de Veludo” porque o responsável pela Victor “cismou” que ele não era para cantar esse ritmo, “levou à cera” (como se dizia) mais três sambas e cinco marchas. Indo para a Odeon, ainda lá suas primeiras gravações foram um samba e uma marcha seguidos de mais seis sambas e seis marchas. Onde está o “Rei da Valsa”? Está em “Apenas Tu”, a primeira valsa de Roberto Martins: “A Você” (primeira de duas únicas valsas de um sambista: Ataúlfo Alves), “É Quase a Felicidade”, “Assim Acaba um Grande Amor”, “Sonhos Azuis” e “...E o Destino Desfolhou”. Voltando à Victor e gravando uma valsa “Italiana”, quando Mr. Evans “percebeu” que CARLOS GALHARDO era para cantar valsas e canções, lançou várias, mas voltou a gravar sambas, dentre eles, em 1942, “Adoro o Samba” de Bucy Moreira e Arnô Canegal. Encerrou suas gravações em 78 rotações, gravando um samba, dois boleros e uma guarânia. Seu terceiro LP recebeu o nome de “Sambas de Ontem”. “Adorava”, ou não,o samba?
CARLOS GALHARDO nasceu em Buenos Aires, vindo com sua família para São Paulo, com apenas dois meses. Com um ano já residia no Rio de Janeiro. Não se conformava em ser argentino e adorava o Brasil. Aportuguesou seu nome (de Guagliardi para Galhardo) e o tornou “brasileiro”. Como ser humano, foi uma das melhores pessoas que conheci. Era, como se dizia, um cavalheiro. Cordial, fino, atencioso... mais que um cantor (grande!) foi para mim um grande amigo. Vinte e quatro anos depois de sua morte (ocorrida em 25 de julho de 1985) sinto uma grande saudade, que provavelmente nunca me deixará. “Saudade, é no teu seio que eu me abrigo, Buscando a minha mágoa amenizar. Saudade, tu dia e noite estás comigo...” Montbläät - Um Jornal Para Entender o Brasil Rio de Janeiro, 3 de abril de 2009 Ano V - Edição Nº 330
Autor:Norma Hauer
Créditos:Luiz Affonso
Fonte:www.montblaat.com.br
Data:03/04/2009
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