CONVERSA CO O LEITOR: MONTBLAAT 4 1/2


Foram exatos quatro anos e meio.
 
Em 3 de setembro de 2004 circulava o primeiro Montbläat.
 
Ainda tímido, sem jeito (esta, uma característica que nunca perdeu totalmente) e com apenas sete páginas, mas já anunciando um grande nome da imprensa brasileira: Jorge Pontual, correspondente da Globo em Nova Iorque.
 
A proposta inicial era a de fazer “personal journalism”.
 
Desempregado e fora do mercado (egresso do ex-JB e mal visto pelo grupo Globo), propunha a meus ex-leitores no JB e Pasquim escrever uma coluna semanal e enviá-la por e-mail mediante um pagamento (que não se alterou) de R$ 10,00 por mês.
 
E assim nasceu o Montbläat, a principio como um jornal bissemanal, circulando às terças e sextas-feiras.
 
Nasceu com 600 endereços cadastrados dos quais cerca de 400 se tornaram assinantes.
 
O objetivo era alcançar mil assinantes para começar a contratar jornalistas e efetivar a proposta de apurar matérias do interesse dos leitores, caracterizando assim a proposta de “jornalismo pessoal”.
 
O nome Montbläat, com cara de sueco e trema não quer dizer absolutamente nada, nasceu de uma das minhas colunas cujo enredo se passava num botequim na Lapa, o Flor do Lavradio, onde batia ponto um jornalista sueco, Harald Magnussen, o Magu, que trabalhava para o Montbläat (um jornal fictício, na Suécia), cujo editor vivia demitindo o nosso plumitivo por não conseguir acreditar nos textos que o infeliz lhe mandava.
 
Tente explicar o senado brasileiro com 10 mil funcionários e mais de 180 diretores, inclusive um “diretor de chek in” a um cidadão de Estocolmo... 
 
Resultado: Magu passou a beber...

Ao longo do processo o Mont sensibilizou muita gente boa, a começar por nossos atuais colaboradores, e ganhou até alguns “prêmios” como o de ser considerado por Moacyr Japiassu, atilado crítico da nossa mídia como “o melhor jornal eletrônico do país”, em sua coluna no Observatório da Imprensa.
Voltando à nossa “redação”, ela foi toda formada por voluntários, desde veteranos e experientes jornalistas como Milton Coelho da Graça, até duas senhoras extraordinárias: Norma Hauer, verdadeira enciclopédia dos dias áureos do rádio brasileiro e a analista de sistemas Anna Maria Ribeiro, uma cronista e memorialista de grande talento, cujo texto delicioso supera (a meu ver) o de qualquer cronista hoje em cartaz nos grandes jornalões deste rincão.
 
 
E isso para não falar de Leneide Duarte -Plon, outra jornalista talentosa (o Mont, podre de chique não podia deixar de ter uma atinada e antenada observadora em Paris).
 
Há ainda a dupla de Ruis; um de São Paulo, meu amigo de infância mais antigo, o Daher, que escreve muito bem e gosta de Molusco (ou melhor, jura que não gosta, mas acha o gosto de tucano pior – com o que concordo plenamente e, além disso, comer tucano dá cadeia).
 
O outro Rui, Paneiro, trabalhou muitos anos comigo no JB e revelou-se um bom analista internacional.
 
J.R. Whitaker Penteado dispensa apresentações, assim como Leonardo Boff (dizer o que?), mas há gente menos conhecida como Peter Wilm Rosenfeld, que joga à direita de nossa zaga; o nome “Bronca” que dei à coluna dele (e à revelia dele), revela toda a indignação contida em nosso Catilina gaúcho.
 
Nelson Rodrigues de Souza é um monstro a 24 quadros por segundo; cinema é com ele mesmo e olhem que quem vos fala foi da geração Paissandu, dirigiu um dos maiores cineclubes do Rio (anunciávamos na TV Globo!) e chegou a assistir 370 filmes em um ano (66 ou 67).
 
Por algum tempo contamos com os talentos de Milton Temer, Jorge Pontual e Jose Roberto Teixeira Leite, um dos melhores críticos da arte do Brasil, mas por motivos pessoais e profissionais acabaram deixando o jornal, embora Temer e Pontual ainda colaborem esporadicamente.
 
João Siqueira foi o último a se incorporar aos habitués de nosso pasquinzinho, filosofando com graça e inteligência sobre pequenas notas de jornal, sempre coisas aparentemente secundárias ou curiosas, pequenas jóias.
 
Outros jornalistas consagrados como o veterano e icônico Nahum Sirotsky também colaboraram regularmente com o nosso jornal.
 
Foi com o coração pequeno que comuniquei a essa equipe de amigos a decisão de desistir. 
 
A razão é simples. 
 
Fiz um levantamento de nossas contas e verifiquei que apenas 110 leitores estavam em dia, mas o pior era que havia somente 30 inadimplentes (desde setembro do ano passado).
 
Os demais eram prospects que entravam e saiam e que nós não retirávamos do envio apesar deles não assinarem. Muitos leitores desistiram do jornal, vários por gostarem mais de Molusco que o Rui.
 
Dos que estão em dia, uma boa parte já pagou adiantado e alguns chegam a estar quites até setembro do ano que vem.
 
Com a suspensão do Mont proponho a esses leitores a volta à proposta original, ou seja, o envio de um artigo semanal até o esgotamento dos pagamentos.
 
O Mont entrará em contato com os que estão em dia para discutir envio ou reembolso para quem preferir.
 
Se somarmos o que foi arrecadado até aqui, com a expectativa de arrecadação até o final do ano e considerarmos os gastos de manutenção do site, livros para o sorteio, gastos com impressora, tinta, etc. o resultado será um buraco, um prejuízo que aponta para a falência.
 
Simplesmente não dá mais para continuar.
 
Nossa proposta era não ter patrocinador para manter a independência editorial, mas isso não foi possível.
 
Além disso, como arranjar patrocinador para uma publicação tão “cult” como a nossa?
 
Não tem saída, o futuro será realmente do jornal eletrônico em papel digital, mas às vezes chegar cedo demais tem desvantagens.
 
Nesses quatro anos e meio em que circulou, o Mont preencheu 11.591 laudas, em 330 edições regulares e 12 extras. 
 
Se colocarmos as folhas de papel do jornal (A-4) uma após a outra daria para cobrir a distância entre Macapá e Porto Alegre.
 
Não é pouco para uma publicação feita como o Mont o foi.

A nossa falência afinal não é um fenômeno tão insólito assim.
No mesmo dia em que eu comunicava o fato aos colaboradores, o grupo do Chicago Sun Times, que edita 50 jornais nos EUA entrou com um pedido de falência, e os dois principais diários de Detroit, o Free Press e o News passaram a circular apenas quinta e domingo.
Em compensação na Europa as receitas dos jornalões estão aumentando... Pena que aqui seja zona de influência norte-americana.
 
De tudo o que mais lamento é perder o contato com um grupo de leitores que de tão presentes acabam por se tornar amigos.
 
Pois é, meus amigos, não deu certo.
 
A maioria das propostas feitas quando criei o nosso jornalzinho, ficaram mesmo no papel, perecem coisas inalcançáveis.
 
A mim, o Mont vai fazer falta, mas novos caminhos surgirão, o que não pode morrer é o sonho.
 
Por falar em sonho e caindo na real e honrando a nossa História (se o Caminha o fez em 1500, por que não eu?), se alguém souber de algum trabalho para um jornalista aceitável e desempregado, não hesite... Vale “frila”.
 
Obrigado a todos de coração, um grande abraço e (quem sabe?) até breve...
 
A seguir algumas primeiras páginas que caracterizaram marcos de nossa pequena-grande História...
 
 
 
 
 
Montbläät - Um Jornal Para Entender o Brasil
Rio de Janeiro, 3 de abril de 2009
Ano V - Edição Nº 330


 

Autor:Fritz Utzeri

Créditos:Luiz Affonso

Fonte:www.montblaat.com.br

Data:03/04/2009

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